domingo, 29 de janeiro de 2012

Mokusô

Hoje esteve um dia lindo e quente e resolvi ir passear pela Arrábida. Adoro lá ir. De um lado vejo todo o vale que nos separa do Tejo; do outro, o rio Sado, que todo o Setubalense se orgulha e gaba, hoje de um tom azul escuro e com um espelho dourado do sol que brilha intensamente.

Cheguei a um miradouro e estacionei o carro. Preciso de parar um pouco e contemplar o que me rodeia, digerir os acontecimentos da manhã passada, em que fui a exame de Cinto Branco Sakura... sem saber que ia a exame. 

"Então… mas tu já não eras cinto branco? Não é por esse que se começa?". 

Sim, de facto assim é, mas o cinto Sakura é simbólico, personalizado com o nome da Escola e entregue ao fim de 3 meses, o tempo considerado útil para ver se o aluno está mesmo interessado em continuar. Foi-me atribuído a mim e mais duas raparigas a título excepcional, porque embora tenhamos começado no jujitsu há menos de um mês, estamos noutras modalidades da Academia desde que abriu em Setembro do ano passado e demos provas do nosso interesse. Ontem foram as nossas capacidades, conhecimentos e atitude que foram testados no tatami em frente ao Conselho de Cintos Negros Sakura e passámos. 

Cada vez que era chamada, mais do que executar as técnicas, era desafiada uma e outra e outra... e outra vez. 

A adrenalina que experimentei ontem… bem, é indescritível o que senti… ainda. 

Sentei-me no muro de um miradouro e pus-me a olhar para o rio. Embora de óculos escuros, tive que fechar os olhos, tal era a intensidade do sol e, como num filme a passar na minha cabeça, revivi os acontecimentos de ontem, todos os acontecimentos que ocorreram no ano passado, todo o limbo em que tenho estado nos últimos 6 anos. 

Ignorei os ruídos à minha volta e dei por mim a posicionar as mãos para um momento de mokusô (meditação japonesa aplicada nas artes marciais), a respirar em plenitude, deixando o ar da serra invadir-me os pulmões, a energia da natureza percorrer-me o corpo como se viajasse no meu sangue. 

Fechei os olhos para me concentrar apenas num dos muitos pensamentos que me assaltavam desde o dia anterior:

Eu e duas amigas viajávamos de carro, conversando animadamente sobre projectos, sobre eventos do passado, sobre o presente. Eu vinha sentada atrás do lugar do co-piloto (detesto a expressão "lugar do morto"), inclinada para a frente entre os dois bancos para melhor participar na conversa. 

Às tantas encostei-me para trás, olhei pelo vidro lateral para a paisagem sem a ver. Sem querer e por um curto espaço de tempo, a conversa tinha-se centrado em mim, nas minhas limitações de tempo, na correria e desassossego que é a minha vida.

Fez-se silêncio. A amiga sentada à minha frente suspirou, mexeu no cabelo num gesto característico seu e disse num tom de voz suave que acho que nunca lho tinha ouvido:

Tens que sonhar muito... muitas coisas... porque os sonhos concretizam-se.
Não fui capaz de lhe responder, não soube o que dizer. Não consigo ser pessimista ao pé dela, não com a convicção com que fala e age. Vendo o seu percurso, sou obrigada a acreditar no que me diz. 

Eu sonhei muito e os meus sonhos desabaram como castelos de cartas. O chão firme que eu pisava na concretização desses sonhos tornou-se escorregadio, lamacento e eu acabei por ser levada na enxurrada. Deixei de sonhar e passei a viver um dia de cada vez. "Que se lixe." - pensei naquela altura.

Não... ela tem razão. Tão jovem e tão sábia, quem diria?

Está bem, miúda, vou seguir o teu conselho. Afinal, eu já estou a viver o sonho, certo? Só tenho que sonhar mais um pouco.




3 Cenouras:

Anônimo disse...

:))))))))))))))))
Namasté

Anônimo disse...

Excelente!!! Alguém disse que as palavras são mais fortes que uma espada, e assim é, certas pessoas, certas palavras, são poderosas e fazem-nos pensar e reflectir.

Rafeiro Perfumado disse...

E, não querendo plagiar ninguém, "o sonho comanda a vida". Uma beijoca!