Hoje esteve um dia lindo e
quente e resolvi ir passear pela Arrábida. Adoro lá ir. De um lado vejo
todo o vale que nos separa do Tejo; do outro, o rio Sado, que todo
o Setubalense se orgulha e gaba, hoje de um tom azul escuro e com um espelho dourado
do sol que brilha intensamente.
Cheguei a um
miradouro e estacionei o carro. Preciso de parar um pouco e contemplar o que me
rodeia, digerir os acontecimentos da manhã passada, em que fui a exame de Cinto
Branco Sakura... sem saber que ia a exame.
"Então… mas tu
já não eras cinto branco? Não é por esse que se começa?".
Sim, de facto assim
é, mas o cinto Sakura é simbólico, personalizado com o nome da Escola e
entregue ao fim de 3 meses, o tempo considerado útil para ver se o aluno está
mesmo interessado em continuar. Foi-me atribuído a mim e mais duas raparigas a
título excepcional, porque embora tenhamos começado no jujitsu há menos de um
mês, estamos noutras modalidades da Academia desde que abriu em Setembro do ano
passado e demos provas do nosso interesse. Ontem foram as nossas capacidades,
conhecimentos e atitude que foram testados no tatami em frente ao Conselho de Cintos Negros
Sakura e passámos.
Cada vez que era chamada, mais do que executar as técnicas, era
desafiada uma e outra e outra... e outra vez.
A adrenalina que experimentei ontem… bem, é indescritível o que senti… ainda.
Sentei-me no muro de um miradouro e pus-me a olhar para o rio. Embora de óculos escuros, tive que fechar os olhos, tal era a intensidade do sol e, como num filme a passar na minha cabeça, revivi os acontecimentos de ontem, todos os acontecimentos que ocorreram no ano passado, todo o limbo em que tenho estado nos últimos 6 anos.
Ignorei os ruídos à minha volta e dei por mim a posicionar as mãos para um momento de mokusô (meditação japonesa aplicada nas artes marciais), a respirar em plenitude, deixando o ar da serra invadir-me os pulmões, a energia da natureza
percorrer-me o corpo como se viajasse no meu sangue.
Fechei os olhos para me concentrar apenas num dos muitos pensamentos que me assaltavam desde o dia anterior:
Eu e duas amigas viajávamos de carro, conversando animadamente sobre projectos, sobre eventos do passado, sobre o presente. Eu vinha sentada atrás do lugar do co-piloto (detesto a expressão "lugar do morto"), inclinada para a frente entre os dois bancos para melhor participar na conversa.
Às tantas encostei-me para trás, olhei pelo vidro lateral para a paisagem sem a ver. Sem querer e por um curto espaço de tempo, a conversa tinha-se centrado em mim, nas minhas limitações de tempo, na correria e desassossego que é a minha vida.
Fez-se silêncio. A amiga sentada à minha frente suspirou, mexeu no cabelo num gesto característico seu e disse num tom de voz suave que acho que nunca lho tinha ouvido:
Tens que sonhar muito... muitas coisas... porque os sonhos concretizam-se.
Não fui capaz de lhe responder, não soube o que dizer. Não consigo ser pessimista ao pé dela, não com a convicção com que fala e age. Vendo o seu percurso, sou obrigada a acreditar no que me diz.
Eu sonhei muito e os meus sonhos desabaram como castelos de cartas. O chão firme que eu pisava na concretização desses sonhos tornou-se escorregadio, lamacento e eu acabei por ser levada na enxurrada. Deixei de sonhar e passei a viver um dia de cada vez. "Que se lixe." - pensei naquela altura.
Não... ela tem razão. Tão jovem e tão sábia, quem diria?
Está bem, miúda, vou seguir o teu conselho. Afinal, eu já estou a viver o sonho, certo? Só tenho que sonhar mais um pouco.
3 Cenouras:
:))))))))))))))))
Namasté
Excelente!!! Alguém disse que as palavras são mais fortes que uma espada, e assim é, certas pessoas, certas palavras, são poderosas e fazem-nos pensar e reflectir.
E, não querendo plagiar ninguém, "o sonho comanda a vida". Uma beijoca!
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