segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Bons Miúdos de hoje, grandes Homens amanhã(?)

Hoje de manhã, no comboio da Fertagus para Lisboa, entrou em Corroios uma rapariga dos seus vinte-e-quase-todos anos acompanhada pelo filhote. Ela sentou-se no banco em frente ao meu, na diagonal e o miúdo ficou sentado ao lado, mas na outra coxia. Às páginas tantas, a senhora à minha direita trocou de lugar com o rapazito, de maneira a que este ficasse sentado de frente para a mãe.

Ela é morena, bonita, de queixo pronunciado, olhos grandes, escuros e pestanudos. Os cabelos aos caracóis pretos com brilhos liláses caem-lhe em canudos pelos ombros até meio das costas e do peito. Vem toda vestida de preto, com um casaco de malha comprido que lhe chega quase aos joelhos e umas sapatilhas do tipo all-star cinzentas. 

O garoto é aloirado, tem os olhos pequenos, redondos, castanhos e vivaços. Está visto que sai ao pai. Os dentes de leite denunciam-lhe a idade; não deve ter mais de 6 anos, vai à escola, aprende inglês e tem ginástica hoje, mas a mãe esqueceu-se. Com alguma sorte, a professora até vai faltar. Numa mão traz um cavalo e na outra um alce, ambos de plástico, que andam à luta, porque, como disse à mãe quando esta lhe perguntou se eles não podiam ser amigos, eles não querem. 

O miúdo é bem educado, simpático e a mãe fala-lhe com carinho e sem linguagem de bebé, não o tratando como se ele fosse de compreensão lenta, como vejo alguns pais fazerem. Com as mãozinhas dele entre as dela, pergunta-lhe se ele quer o telemóvel que ela tem lá em casa e que ela não usa, porque tem uns jogos engraçados e assim ele já não brincava com o que ela utiliza agora.

Ele parece gostar da ideia e diz que sim. A mãe acrescenta:
- Olha, há umas máquinas assim como os telemóveis, que se usavam quando a mãe era pequenina e que tinham o tetris, aquele jogo das peças que tu jogas no meu. Gostavas antes de ter um desses?

Ele encolhe os ombros, diz que pode ser. Parece-me que a ideia não lhe desagrada de todo, mas também não o entusiasma.
- Olha e o jogo do Faísca? - pergunta ela - Já há muito tempo que não o trazes. Já não brincas com ele?

O miúdo olha constragido pela janela e depois de muitas voltas, diz que já não, mas parece sentir-se um pouco culpado por ter um brinquedo bom lá em casa de que já não gosta. O que ele diz à mãe dá-me vontade de o agarrar pelas bochechas e dar-lhe um beijo na testa:

- Eu prefiro dá-lo a outro menino que não tenha brinquedos...